"Quando chegamos ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos,
o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas, não só as já conhecidas, mas ainda as que
só serão descobertas daqui a muitos séculos. Foi grande fineza e não foi única. São
Pedro, que tem as chaves do céu, abriu-nos as portas dele, fez-nos entrar, e depois de
tocar-nos com o báculo, recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As
mulheres sejam sujeitas a seus maridos... Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos
riçados ou as rendas de ouro, mas o homem que está escondido no coração... Do mesmo
modo, vós, maridos, coabitai com elas, tratando-as com honra, como a vasos mais
fracos, e herdeiras convosco da graça da vida...” Em seguida, fez sinal aos anjos, e eles
entoaram um trecho do Cântico, tão concertadamente, que desmentiram a hipótese do
tenor italiano, se a execução fosse na terra; mas era no céu. A música ia com o texto,
como se houvessem nascido juntos, à maneira de uma ópera de Wagner. Depois,
visitamos uma parte daquele lugar infinito. Descansa que não farei descrição alguma,
nem a língua humana possui formas idôneas para tanto."
-- Dom Casmurro, CAPÍTULO CI - Machado de Assis
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